SÃO FÉLIX DO XINGU (PA) – Passados mais de quatro anos da execução brutal do ambientalista José Gomes, o Zé do Lago, de sua esposa Márcia Nunes Lisboa e da enteada Joane Nunes Lisboa, o manto do esquecimento institucional e o medo continuam a imperar na Transamazônica. O triplo homicídio, ocorrido em janeiro de 2022 às margens do Rio Xingu, segue sem que o Estado do Pará aponte mandantes ou execute prisões. Protegido por um sigilo absoluto de Justiça pedido pela Polícia Civil, o inquérito esconde não apenas as provas coletadas, mas a identidade de criminosos considerados de altíssima periculosidade pela comunidade local.
Quem deveria ser o primeiro investigado?
Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a resposta sobre a autoria intelectual do crime deveria começar pelo óbvio histórico de violência agrária na região. A entidade e movimentos de direitos humanos apontam que o primeiro alvo de uma investigação séria deveria ser o fazendeiro Francisco Torres de Paula Filho, conhecido como Torrinho Torres.
- O Motivo: A área onde Zé do Lago vivia há mais de vinte anos e mantinha um projeto de reprodução de tartarugas e tracajás fica dentro da APA Triunfo do Xingu, mas é diretamente reivindicada por Torrinho Torres como parte da "Fazenda Baú".
- O Histórico: Torrinho é irmão de João Cléber de Sousa Torres (prefeito de São Félix do Xingu). Ambos possuem um extenso histórico de denúncias que envolvem grilagem de terras públicas e crimes ambientais na região.
- A Linha Ignorada: Ativistas denunciam que, nos primeiros meses, a Polícia Civil do Pará preferiu vasculhar o passado das vítimas a confrontar o poder político e econômico dos fazendeiros locais.
O pedido de sigilo e o fator do medo
A Polícia Civil do Estado do Pará foi quem solicitou e fundamentou o sigilo sobre o inquérito da chacina, medida chancelada pelo Poder Judiciário. Oficialmente, a justificativa para trancar as informações é "garantir a eficácia das diligências e proteger o andamento das investigações".
Contudo, na prática do sul do Pará, o sigilo total cumpre outra função velada: isolar o caso dos olhos da opinião pública e da imprensa. Ao camuflar os passos da apuração, as autoridades evitam o desgaste político de entregar relatórios vazios, sem o indiciamento de grandes latifundiários.
Testemunhas em risco: Quem é o "Monstro Invisível" no inquérito?
A imposição de sigilo absoluto e a extrema cautela com depoimentos revelam o tamanho do perigo real. Se a polícia precisa esconder os autos para colher provas, fica evidente que existe alguém altamente perigoso — com forte poder político, financeiro e bélico — capaz de aniquilar qualquer testemunha que ouse falar.
Em São Félix do Xingu, o crime organizado opera por meio de consórcios de desmatamento, roubo de terras públicas e redes de pistolagem profissional amplamente conhecidas. Relatórios históricos enviados ao governo federal já apontavam os clãs latifundiários da região como "comandantes do crime organizado", temidos pela população local pela capacidade de encomendar mortes sem sofrer punição.
As poucas testemunhas indiretas que aceitaram falar o fizeram sob a condição de anonimato absoluto e por canais protegidos (como o Disque-Denúncia 181). O temor não é infundado: no sul do Pará, colaborar com a polícia em casos que envolvem grandes fazendeiros frequentemente resulta em novas sentenças de morte.
A busca pela Federalização
Diante da paralisia das forças estaduais e do sigilo que parece servir de escudo para a impunidade, organizações nacionais acionaram o Ministério Público Federal (MPF) para pedir o Incidente de Deslocamento de Competência (IDC). A meta é transferir o caso para a Polícia Federal, retirando o inquérito das mãos das autoridades paraenses, sob o argumento de que o Estado do Pará se mostra incapaz — ou politicamente relutante — de prender os mandantes da morte da família de Zé do Lago.